quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

oração do cachorro abandonado



Sabe, senhor, ainda não entendi. Viemos à rua, pensei ser um passeio; estranhei, ele não tinha esse hábito, mas fui, feliz. Lá chegando, ele me deu as costas, entrou no carro, e nem me disse adeus. Olhei para ...os lados, nem sabia o que fazer. Ainda tentei segui-lo e quase fui atropelado. Que teria feito eu de tão mal?

À noite, quando ele chegava, eu abanava o rabo, feliz, mesmo que ele nunca viesse ao quintal me ver. Às vezes eu latia, mas tinha estranhos no portão; não poderia deixa-los entrar, sem avisar o meu dono! Quem sabe, foi a minha dona que mandou, devia estar lhe dando trabalho... Mas não as crianças, elas me adoravam. Como sinto saudades! Puxavam-me a calda, as vezes eu ficava uma fera, mas logo éramos amigos novamente. Creio que eles nem sabem, devem ter-lhes dito que fugi.

Estou faminto, só bebo água suja, meus pêlos caíram quase todos. Nossa, como estou magro! Sabe, Pai, aqui neste canto que arrumei para passar a noite, faz muito frio, o chão está molhado. Creio que, ainda hoje vou me encontrar contigo, ai no céu, meu sofrimento vai terminar. Ao menos em espírito, terei permissão de ver as crianças.

Peço-vos, então, não mais por mim, mas por meus irmãozinhos. Mande-lhes a pessoas que deles tenham compaixão, pois, sozinhos como eu, não viverão mais que alguns meses na terra do homem. Amenize-lhes o frio, igual ao que sinto agora, com o calor dos atos de pessoas abençoadas. Diminua-lhes a fome tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado. Sacie-lhes a sede com a água pura dos seus ensinamentos transmitidos ao homem.

Elimine a dor das doenças, extirpando a ignorância da Terra. Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos apregoados como religiosos, científicos e tudo mais, tirando das mãos humanas o gosto, pelo sangue. Ampare as cachorrinhas prenhas que verão suas crias morrerem de fome, frio e pestes, sem nada poder fazer.

Abrande a tristeza dos que como eu foram abandonados, pois entre todos os males, o que mais me doeu foi este. Receba, Pai, nesta noite gélida, a minha alma, pois não será o meu sofrimento, mas a dos que ficarem, é por eles que vos peço!

(autor desconhecido)

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